O I Ching por sua prespectiva original: Um instrumento de Meditação

Submetido por merlin em 2006-03-20 22:24:04 com as tags .
Há pouco mais 40 anos (1956), era publicado na Alemanha, o I Ching -Livro das Mutações- traduzido do chinês para o alemão por Richard Wilhelm, com prefácio de C.G Jung (editado no Brasil pela Editora Pensamento).

Considerado o mais antigo livro chinês, é também o mais moderno, pela notável influência que vem exercendo, de uns anos para cá, no pensamento do Ocidente, coincidindo com as mais atuais concepções do mundo.

Hoje, infelizmente, a grande maioria dos ocidentais o vê simplesmente como um oráculo, um manual de adivinhação que pode nos auxiliar a resolver questões muitas vezes corriqueiras ou de pouca importância. Assim nos acostumamos a vê-lo em tendas de adivinhação em shopping centers e até em serviços telefônicos do tipo ligue-pague-e-saiba-seu-futuro.

Em primeiro lugar, o Livro das Mutações é, antes de mais nada, um instrumento de meditação. Da mesma maneira que não nos adianta pagar para alguém fazer exercício físico por nós, já que isto não nos fará ficar em boa forma física, não me parece adequado utilizar outrem para meditar por nós. Muito menos se isto significar um mero e simples comércio. Inegável que ele possua também uma função oracular, mas esta não é a única e muito menos sua principal característica.

Ele possui ricos ensinamentos filosóficos, éticos e morais. Está presente de diversas maneiras na vida do país mais populoso do planeta seja na arte, na medicina ou em suas doutrinas. Podemos identificá-lo no Taoísmo, no Confucionismo e até mesmo no Budismo Zen, só para citar algumas das doutrinas que receberam sua influência.

Mas, acredito que melhor do que falar sobre o I Ching, é convidar você leitor a percorrer algumas de suas idéias básicas, utilizando-me, na medida do possível, de suas próprias palavras e imagens, que identificaremos através do uso de "aspas" e de letras em itálico.

O sábio Confúcio, que viveu na China por volta do século V a.C., já se referia ao I Ching como uma obra milenar. Se esta obra tem 3 ou 5 mil anos, parece não fazer muita diferença pois como o próprio Livro das Mutações afirma "...nas palavras e actos do passado jaz oculto um tesouro que o homem pode utilizar para fortalecer e elevar seu próprio caráter. O estudo do passado não se deve limitar a um mero conhecimento da história, mas deve através da aplicação desse conhecimento, procurar dar atualidade ao passado". ( Hexagrama 26; montanha sobre céu).

Fruto da contemplação do povo chinês, que observando as características de oito elementos presentes na Natureza, investigavam seus atributos e procuravam entender como estes relacionavam-se uns com os outros.

Inicialmente, eram versos rimados para favorecer a memorização, que eram repetidos e passados de geração em geração.

Estas imagens da natureza, representadas posteriormente pela combinação de conjuntos de 3 linhas, divididas entre linhas inteiras e linhas interrompidas, passaram a chamar-se Trigramas. São os 8 Trigramas Básicos, a saber, Céu; Terra; Trovão; Montanha; Água; Fogo; Lago e Vento.

Assim, meditava-se sobre as características de cada Trigrama, buscando nele um modelo para agir, em sintonia com as grandes Leis do Cosmos. Ou, se desejarmos uma definição Taoísta (doutrina elaborada por Lao-Tsé, que era reconhecido como um sábio, grande estudioso do próprio I Ching) buscando agir pelo caminho natural, a lei do menor esforço, a acção de acordo com o Tao.

Vamos observar um destes elementos ou trigramas, a água. "A água alcança a sua meta fluindo ininterruptamente. Ela preenche todas as depressões antes de fluir adiante. O homem superior segue esse exemplo e procura fazer com que o bem se torne um atributo consolidado em seu carácter, e não apenas uma ocorrência ocasional e isolada".(Hexagrama 29, água sobre água).

Ou então, se observarmos a Montanha, com base firme e imóvel enfrentando as tempestades, ventos e fogo: "Quando os nervos dorsais são postos em repouso é como se o eu, com suas inquietudes, desaparecesse. Quando o homem alcança esta tranqüilidade interior, pode se dirigir ao mundo externo e já não verá mais nele a luta e o tumulto dos seres individuais. Tendo atingido a verdadeira paz, ele poderá, então, compreender as grandes leis do universo e agir em harmonia com elas. A acção que tem suas origens nesses níveis mais profundos não errará." (Hexagrama 52, montanha sobre montanha).

Combinando entre si os Trigramas, dois a dois, formando conjuntos com 6 linhas, vamos ter 8 trigramas x 8 trigramas, que nos dá um total de 64 conjuntos, chamados de Hexagramas. Nos dois últimos exemplos mostrados do I Ching, utilizamos hexagramas caracterizados pela repetição de um mesmo elemento. Respectivamente, o 29, Abismal, formado pela água sobre água e o hexagrama 52, A Quietude, formado pela montanha sobre a montanha.

Cada um destes 64 hexagramas contém uma imagem para meditação. Poderíamos chamá-los de 64 situações arquetípicas, cada uma representando uma etapa ou mutação. É interessante notar que no I Ching nada é estático ou imutável, cada uma destas situações é um confronto de forças ou energias. A resultante pode ser até o equilíbrio, mas não nos devemos deixar enganar, pois "só a máxima cautela pode evitar danos. Na vida também há situações em que todas as forças estão em equilíbrio, interagindo em harmonia. Tudo então parece estar em ordem. Em tais períodos só o sábio reconhece os sinais que pressagiam o perigo e sabe como evitá-lo, providenciando, em tempo, medidas preventivas". (Hexagrama 63, água sobre fogo).

Para entendermos melhor o conceito da mutação, vejamos como ela é definida no Livro: "Tudo na terra está sujeito à mutação. À prosperidade segue-se a decadência. Esta é a eterna lei da terra". (Hexagrama 11, terra sobre céu) Ou ainda, "A lei do céu esvazia o que está pleno e preenche o vazio; de acordo com a lei do céu, quando o sol alcança o zênite, inicia seu declínio, e quando chega ao nadir, ascende outra vez rumo a um novo amanhecer. De acordo com a mesma lei, quando a lua está cheia, começa o minguante, e na lua nova reinicia-se o crescente. Essa lei celeste atua também no destino dos homens. A lei da terra consiste em alterar o que é pleno e fluir em direção ao que é modesto; assim as altas montanhas são aplainadas pelas águas e os vales são preenchidos. A lei do poder do destino corrói o que está pleno e faz prosperar o que é modesto. Os homens também odeiam o que é cheio de si e amam o que é modesto". (Hexagrama 15, terra sobre montanha).

Nos hexagramas, a posição de cada elemento ou trigrama é fundamental. Ajuda a entender o significado do hexagrama como um todo. Como no caso do exemplo acima, onde "A Modéstia" é representada pela "montanha embaixo da terra". Ou pelas palavras do Livro: "A terra em cujo interior se oculta uma montanha não deixa ver sua riqueza, pois a altura da montanha serve para compensar a profundidade da terra. Assim a altura e a profundidade se complementam e o resultado é o plano. A imagem da modéstia está aqui representada por algo que, embora ao final pareça fácil e simples, exigiu um longo esforço".

Da mesma forma, se alterarmos os trigramas de posição dentro do hexagrama vamos ter resultados bem distintos. Examinemos os trigramas "Céu" e "Terra": - se tivermos, como no hexagrama 11, o céu embaixo e a terra em cima, "O hexagrama indica uma época em que o céu parece estar na terra. O céu colocou-se sob a terra, e assim os dois princípios unem seus poderes em profunda harmonia. Essa união traz paz e bênção a todos os seres". Não por acaso, o nome deste belíssimo hexagrama é Paz.

Mas, se ao contrário, tivermos o céu em cima e a terra embaixo, como, aliás, estamos acostumados a ver por nossas janelas: "Céu e terra estão dissociados, e todas as coisas tornam-se entorpecidas. O que está acima não se relaciona com o que está abaixo e na terra prevalece a confusão e a desordem. O poder da escuridão está no interior e o poder da luz, no exterior. A fraqueza está no interior, a rigidez, no exterior..." Também não por acaso, o nome deste hexagrama é Estagnação.

Se lembrarmos que vivemos no período de Kaliyuga, idade negra ou de ferro, segundo o hinduísmo, a atualidade do I Ching, através da descrição acima, é perfeita.

Então, surge a pergunta (dois pontos?). Como pode o Livro das Mutações nos ajudar? Em primeiro lugar, nos mostrando algumas Leis que estariam por detrás de todas as relações, ou por suas palavras: "A lei é o começo da educação. A juventude, em sua inexperiência, tende, ao início, a encarar tudo de maneira descuidada, como uma brincadeira. Deve-se então mostrar-lhe a seriedade da vida".(Hexagrama 4, montanha sobre água).

Uma vez vencida a "Insensatez Juvenil", nome do hexagrama 4, deve-se buscar o amadurecimento ou superação do ego. "Liberto de seu ego, ele contempla as leis da vida, e reconhece que saber se manter livre de culpas é o supremo bem".(Hexagrama 20, vento sobre terra).

O caminho do autoconhecimento geralmente é apontado como eficaz para a superação do nosso ego, mas aqui surge outra dificuldade: "Ninguém conhece a si próprio. Só pelas conseqüência de suas ações, pelos frutos de seu trabalho, poderá o homem avaliar o que o espera".(Hexagrama 10, céu sobre lago).

E para que não culpemos o Livro das Mutações por nossas acções equivocadas, ele alerta: "Só quando um homem reconhece que é responsável por seus próprios erros é que se torna capaz de aprender com essas experiências dolorosas a evitar novas faltas." (Hexagrama 60, água sobre lago).

Para isto, devemos transformar-nos. Ao invés de teimosamente valorizar nosso ego e seus caprichos, achando que tudo podemos e de que somos capazes de fazer as coisas sempre de acordo com a nossa vontade, ele nos lembra que "Quando o movimento segue a lei dos céus, o homem se torna inocente e sincero... Entregando-se a esse princípio divino dentro de si, o homem alcança uma inocência incontaminado. Ela o conduz ao bem com certeza instintiva e livre de intenções ulteriores de recompensa ou vantagem".(Hexagrama 25, céu sobre trovão).

Como diz a tradição taoísta, para os céus os homens são como cães de palha. Da mesma forma não devemos esperar por qualquer tipo de deferência ou favores especiais. "Abençoar significa ajudar. O céu ajuda ao homem de devocção; os homens ajudam a quem é sincero. Aquele que caminha na verdade e pensa com devoção, reverenciando ainda aos homens dignos, é abençoado pelo céu. Ele encontra a boa fortuna e tudo lhe é favorável". (Hexagrama 15, terra sobre montanha).

O pensamento chinês está cada vez mais sendo assimilado por nós ocidentais, entre outras características, por que ele é essencialmente prático e objetivo. E dentre as várias idéias do Livro das Mutações, uma em particular parece muito adequada e útil para colocarmos em prática em nossa vida cotidiana: "Quando alguém descobre algo de bom nos outros, deve imitá-lo, integrando a si, desse modo, todo o bem sobre a terra. Quando percebe algo de mau em si mesmo, deve descartá-lo. Assim se libertará do mal. Esta mudança ética é o mais importante aumento da personalidade". (Hexagrama 42, vento sobre trovão).

Buscando vencer a tentação de buscar fórmulas prontas e acabadas de como devemos pensar ou agir, o Livro das Mutações se abre para aqueles que procuram nele uma fonte de inspiração para vencer os desafios e obstáculos da vida. "Um homem não deve se deixar arrastar passivamente por circunstâncias desfavoráveis, nem permitir que sua firmeza interna seja abalada. Ele o conseguirá conservando sua clareza interior e permanecendo adaptável e tratável no plano externo. Com essa atitude é possível superar até a maior adversidade." (Hexagrama 36, terra sobre fogo).

E para encerrar, gostaria de deixar duas idéias para meditação.

A primeira: -"À medida que um perigo se repete, o homem tende a se acostumar a ele. A água dá o exemplo de conduta correta nessas condições. Prossegue fluindo e vai preenchendo todas as depressões que encontra. Não vacila ante nenhuma passagem perigosa, não retrocede ante nenhuma queda, e nada a faz perder sua natureza essencial. Ela permanece fiel a si mesma em todas as circunstâncias. Assim também, se uma pessoa for sincera quando confrontada com dificuldades, seu coração chegará ao significado da situação. E quando se consegue dominar interiormente um problema, o sucesso acompanhará de maneira natural as ações." (Hexagrama 29, água sobre água)

A segunda: -"Apesar das diferenças em tendências e educação, os fundamentos da natureza são idênticos em todos os seres. E cada indivíduo, em sua formação, pode usufruir dessa fonte inesgotável, que é a centelha divina presente no interior da natureza humana". (Hexagrama 48, água sobre madeira)
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